sábado, 16 de setembro de 2017

Demasias

Chegou sem fome, banhado em alegria e conversedo. E alagou os presentes em beijos e abraços. Verborreico. Sentou-se a depenicar a refeição. E bebeu. Garrafa a meio, interrompeu para fumar um cigarro. No exterior. Envolto em noite. Ao entreabrir da porta, uma aragem fria espevitou arrepios sala fora e logo um coro uníssono, atenção à porta. Fechou-a sorrindo, a mão a palpar o isqueiro no bolso. E as conversas recomeçaram sem imoderados, pausadas. Faltava ele, braços a alongar pela mesa e palavras de atropelo, as tais palavras a borbulhar alegria, espuma breve que por vezes se perdia no entaramelado da língua sob a curiosidade auspiciosa de quatro ou cinco pares de olhos que as anzolavam sem êxito.
Um súbito abrir da porta desenhou-o em fundo escuro. E logo o coro, a porta. Então, feito sinaleiro, impôs calma, um dedo em gancho a definir-lhe a intenção; acenou-lhe, chamou-a sem palavra. Ela corrigiu um botão da blusinha e interpretando o desejo comum, saiu fechando a porta. Sentaram-se no poial, apenas iluminados pelo postigo, sinal da vida que, a três passos, corria quente e cómoda. Ali, não. Ali, havia a hostilidade da aragem. Ele fumava a olhá-la. Atento. Finalmente tomou coragem e veio o discurso da partilha de emoções e problemas, o eterno discurso feito e tão vezeiro, a partilha ajuda; o, julgo que sabes porque estás aqui e eu julgo que sei o teu problema. Ela sorriu. Apenas. E foi tão indefinida quanto ele, partilhar não resolve, mas obrigada na mesma.  Ele entre baforadas, tu é que sabes. Findo o cigarro, entraram ambos. Sentaram-se à mesa a retomar fios de meada. A garrafa decerto morreu vazia que ela saiu antes, era tarde, esfriara no seu vestido de verão.
No dia seguinte, cumpriu o prometido, visitou-a. Era manhã. Partiu depois de beber um café quotidiano enquanto  conversava pelos cotovelos. Ela viu-o desaparecer em pressas de acelerador e pensou na por demais incerta certeza dele, “quando formos mais velhos tomamos conta uns dos outros”. Jovem e bem intencionado. Oh, a incólume juventude, sem rastos  de tempo e sua corrosiva importância.  Como é que ele consegue?!...


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