domingo, 10 de setembro de 2017

Chapinhando

Sou de sequeiro e não sei se gosto do mar enquanto oceano e imensidão. Temo-o. E rondo-o. Olho maravilhada aquela imensa mole, admiro-lhe a grandeza e a paleta de cores, o movimento incessante e vivaz, o brilho sob o sol. Se penso nele, habita-me um respeito temeroso, inibidor do sentimento.  Não apeteço cruzeiros e o meu ser repele um horizonte de água. Sou adversa à constância do cheiro ao iodo marítimo e a viver balanceada num insuportável colchão aquoso.
Mas a praia. A praia sedutora, a expandir-se até aos confins mais escusos do eu e infra eu. Exigente, despoja-me do ser que sou e me habita. E ali ficamos em sintonia. Entretanto, não me preocupa o que sou, sabendo que sou ainda alguma coisa. Agrada-me como amante romanesca que arrasa convenções e se deita sobre elas a descansar. Com ela tolero a vida; de outras vezes, ajuda-me a viver com mais ou menos apreço. Sou de visitas pontuais em calores de verão. E ainda assim me sustenta. É um dos meus amores perfeitos. Alinda-me os interiores.

Penso bastas vezes na hipótese de perdê-la. Sonho que deixa de me existir. Na verdade, qualquer contingência pode impedir-me de visitá-la e obrigar-me a desistir dos momentos que acolho e acabido dentro de mim, preciosidade que são. Mas talvez Isabel Allende tenha razão. No que julgo o seu último livro há uma mulher que durante três anos envia cartas a si mesma. Faz viagens para nada. Ora, coisa nenhuma é “para nada”. O chato disto tudo é que a gente, mediante as linhas que a vida e os outros nos traçam, pensa ser original. E não. Vai-se a ver há uma escritora que pensou exactamente o mesmo. Mas ela apenas pensou. 

Sem comentários:

Enviar um comentário